28 agosto 2016

Aceitando uns aos outros


Aceitando uns aos outros

7Portanto, aceitem-se uns aos outros, da mesma forma como Cristo os aceitou, a fim de que vocês glorifiquem a Deus. Rm. 15.7 (NVI)

Julgar ou Aceitar

Quando a aceitação dos outros é baseada em princípios legalistas, estranhos ao ensinamento bíblico, ou meramente culturais, somos levados rapidamente a um comportamento acusador ou a uma pseudo-espiritualidade. Isso cria falsa culpa em quem é rejeitado e destrói a liberdade pessoal do cristão.

No outro lado do pêndulo, passa-se do legalismo para a licenciosidade, usando-se a liberdade em Cristo para engajar-se em atividades que são sem dúvida uma violação dos desejos de Deus, sob o pretexto de que estão “sob a graça” e não “sob a lei”.

A chave da unidade

8 Porque pela sua graça é que somos salvos, por meio da fé que temos em Cristo. Portanto a salvação não é algo que se possa adquirir pelos nossos próprios meios: é uma dádiva de Deu;9 o é uma recompensa pelas nossas boas obras. Ninguém pode reclamar mérito algum nisso.10 Somos a obra-prima de Deus. Ele criou-nos de novo em Cristo Jesus, para que possamos realizar todas as boas obras que Deus planeou para nós. Ef 2.8-10 (OL)

Devemos aceitar outros cristãos assim como Cristo nos aceitou, o que nos leva a perguntar: como Jesus nos aceitou? Obviamente ele não nos aceitou por sermos perfeitos, porque não o somos. Tampouco não nos recebeu em sua família baseado em nossa cor, status, condição financeira, idade, sexo ou formação acadêmica.

Jesus nos aceitou como estávamos. Acreditamos no seu amor por nós e isso foi suficiente. Jesus Cristo nem mesmo nos pede que arrumemos a casa para sermos aceitos. Ao contrário: ele nos afirma que nos aceita com nossas fraquezas e tudo mais. Ele nos recebe como estamos para fazer as transformações de que precisamos.

A aceitação nesses termos: por amor, sem condições e com compromisso para a transformação é do tipo que glorifica a Deus, porque reconhece em Deus o autor e consumador da nossa fé.

Nem desprezo nem julgamento

3Aquele que come de tudo não deve desprezar o que não come, e aquele que não come de tudo não deve condenar aquele que come, pois Deus o aceitou. Rm 14.3(NVI)

A aceitação mútua na igreja é uma via de mão dupla. Aqueles que estão dando seus primeiros passos com o Senhor são convidados a não julgarem seus irmãos mais experientes por alguma atitude que não lhe parece correta, mas que você não está certo de que sejam realmente desobediência ao Senhor.

Aqueles que estão firmes na fé e caminham com o Senhor há tempos são convidados a não desprezarem os irmãos que em suas consciências ainda têm dúvidas sobre os assuntos sem orientação expressa nas Escrituras e se sentem inseguros em situações conflituosas.

20 Não destrua a obra de Deus por causa da comida. Todo alimento é puro, mas é errado comer qualquer coisa que faça os outros tropeçarem. 21 É melhor não comer carne nem beber vinho, nem fazer qualquer outra coisa que leve seu irmão a cair. Rm 14. 20,21 (NVI)

Se somos firmes na fé, teremos sensibilidade para com nossos irmãos e irmãs em Cristo que não são tão firmes quanto nós. Devemos ter o cuidado de não fazer nada que possa leva-los a fraquejar e cair no pecado.

Sem parcialidade

1 Meus irmãos, a fé em nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, é incompatível com atitudes de parcialidade em relação às pessoas. Tg 1.1 (OL)

16 Trabalhem juntos com alegria. Não busquem mostrar grandeza. Não procurem cair nas boas graças de gente importante, mas tenham prazer na companhia de gente comum. E não pensem que vocês sabem tudo! Rm 12.16 (BV)

Tiago e Paulo alertam sobre a forma diferente com que alguns irmãos estavam tratando aqueles que tem mais recursos financeiros ou tem mais importância na sociedade. Tiago é contundente e afirma que isso não é compatível com a fé em Jesus. Já Paulo alerta para o fato de que atitudes assim colocam em risco a própria unidade da Igreja, pois é muito difícil trabalhar juntos quanto o clima da igreja é de preferência e parcialidade em favor de alguns.

Honra, sim. Favoritismo, não

Não é errado honrar que é fiel a Deus, dedicando-lhe suas posses e sua própria vida. Assim como não é errado honrar cristãos por serem hospitaleiros, anunciadores do evangelho ou servos fiéis em tudo que fazem. A honra digna de ser recebida também honra a Deus que presenteou com dons e talentos.

No entanto, favoritismo e discriminação fazem com que cristãos sejam rejeitados e apartados, o que viola a lei de Deus e a verdadeira natureza do funcionamento do corpo de Cristo. Se mostramos favoritismo, destruímos a unidade, a harmonia e a singularidade do corpo de Cristo.



Adaptação a partir do capítulo 5 – Aceitando uns aos outros – do livro Um por todos, todos por um, escrito por Gene Getz Traduzido por Ana Vitória Esteves de Souza e publicado pela Editora Textus – Rio de Janeiro. Versões da Bíblia: OL – O Livro, BV – Bíblia Viva, NVI – Nova Versão Internacional

25 agosto 2016

Unidos em Santidade


Unidos em Santidade
Comunidade Batista Mangabeira IV - João Pessoa/PB - 21/08/16 

Introdução

Boa noite, irmãos! É muito bom ter novamente a oportunidade de compartilhar a Escrituras e juntos nos aproximar do texto sagrado. Depois de alguns dias de férias a saudade já estava apertando o coração.

Agosto foi separado pelos Batistas como um mês para lembrarmos de forma especial dos jovens de nossas igrejas e encorajá-los a perseverar no caminho que estão trilhando com Jesus. E como é importante encorajar! Isso está acontecendo aqui na CBM e por todo o país.

Nossa juventude escolheu um tema para nortear as reflexões neste mês: Unidos em Santidade. Certamente é um tema desafiador que merece nossa atenção. O texto bíblico de onde esse tema nasceu está na primeira carta escrita pelo Apóstolo Pedro.

...sejam santos vocês também em tudo o que fizerem, 1 Pe. 1.15b (NVI)

Então, por favor, abra sua Bíblia no primeiro capítulo desta carta e a mantenha aberta lá. Esse capítulo será o texto sobre o qual conversaremos hoje à noite.

A título de introdução a essa conversa, quero fazer uma pergunta: porque alguém, em pleno século XXI, teria algum interesse em tratar sobre santidade? Fala sério! E mais, porque santidade faria parte dos assuntos que interessam aos jovens?

Santidade é uma palavra um pouco mofada, não? Pra começar, todos os santos são velhos. Santidade não parece combinar com juventude. Sempre que alguém começa a falar sobre essa tal de santidade o discurso parece retrógrado e os exemplos parecem antiquados.

Outra questão é que toda vez que alguém fala sobre santidade parece estar querendo tirar algo bom e prazeroso da gente. Santidade parece sinônimo de NÃO. Aí fica aquela impressão de que se embarcarmos nessa a vida vai ficar meio sem graça e sem brilho.

Por fim, às vezes parece que santidade é uma palavra comum na boca de gente arrogante, que se acha sempre superior aos demais. Ora, se aqueles que se interessam por santidade são assim, parece então que isso não ajuda muito as pessoas a se tornarem seres humanos melhores. Por que, então, eu e você deveríamos nos interessar por esse assunto?

No entanto, a despeito dessas constatações, acabamos de ler um trecho das Escrituras que nos orienta a sermos santos em tudo que fizermos. O que fazer com essa orientação? Bom, poderíamos seguir o exemplo daqueles que selecionam para si as partes da Bíblia que são boas e descartam aquelas que são desconfortáveis, mas não acho que esse seja o melhor caminho.

A Bíblia não é um site de frases bonitas em que se escolhe aquela que arrepia o braço quando você lê. Ela é um legado do Espírito Santo, deixada para lançar luz sobre quem é Deus, sobre quem nós somos e para anunciar as boas novas de que nosso relacionamento com ele pode ser restabelecido mediante a fé no amor dele por nós.

Diante disso tudo, a saída mais honesta que nos resta é examinar o texto o bíblico e tentar compreender um pouco mais sobre essa santidade de que fala o apóstolo Pedro. Será que ela tem algum significado para nós, hoje? Vamos ler juntos o texto projetado e depois pedir ao Senhor que nos guie.

13Portanto, estejam com a mente preparada, prontos para a ação; sejam sóbrios e coloquem toda a esperança na graça que lhes será dada quando Jesus Cristo for revelado.14Como filhos obedientes, não se deixem amoldar pelos maus desejos de outrora, quando viviam na ignorância. 15Mas, assim como é santo aquele que os chamou, sejam santos vocês também em tudo o que fizerem, 16pois está escrito: "Sejam santos, porque eu sou santo". 1 Pe. 1.13-15 (NVI)

Santidade não é para todos

Pode parecer estranho o que vou dizer agora, mas acredito que temos no verso 15 uma dica segura de que santidade não é para todos. No começo do texto, Pedro parece deixar claro que santidade não é requerida e nem mesmo esperada de todos, mas tão somente daqueles que foram chamados por Deus e responderam sim a esse chamado.

Eu quero ser o mais claro possível sobre esse ponto porque esse entendimento é um divisor de águas que pode mudar sua vida.

Responder sim ao chamado de Deus é desistir de fazer algum bem espiritual por si mesmo e receber o bem maior oferecido por Deus. Não há em seu interior qualquer recurso espiritual propriamente seu que seja suficiente para dar um jeito em sua vida. Enquanto você não reconhecer essa realidade, santidade será algo estranho aos seus ouvidos.

Outra forma de compreender esse sim ao chamado de Deus é compará-lo a alguém à deriva em alto mar que se dá conta de que o barco em que se encontra está destruído, sem reparo e afundando, e que recebe agradecido o bote salva-vidas jogado em sua direção.

 Alguém que continua tentando consertar a vida por conta própria carrega sobre os ombros fardos pesados. A cada dia o esforço para se manter em pé e sorrir parece maior. Uma manhã após a outra e os dias chegam sobrecarregados pelos esforços de fazer a vida dar certo.

Há uma boa notícia pra você que passa o dia em busca de uma postagem no Face, uma mensagem no Whatsapp, um elogio, um afago ou qualquer outra coisa que o ajude a suportar o peso de carregar o mundo sobre os ombros:

Jesus sabe de tudo que se passa com você.  Ele deseja salvá-lo desse naufrágio iminente em que sua vida de transformou. Ele quer aliviá-lo dos fardos que estão tornando seus dias um verdadeiro globo da morte, onde parar parece mais perigoso do que continuar. Ouça o que ele disse:

28 "Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso. Mt 11.28 (NVI)

É assim que alguém começa a seguir a Jesus: indo para ele. Santidade, portanto, não é algo que possa se esperado de todas as pessoas com quem cruzamos, mas é um modo de vida, uma direção apontada pelas Escrituras para todos aqueles que atenderam ao chamado de Jesus e se tornaram seus seguidores e discípulos.

Santidade começa com Regeneração

Agora que compreendemos que o chamado para santidade é um privilégio guardado para os seguidores de Jesus, precisamos voltar ao início deste capítulo para considerarmos os detalhes desse ponto de partida.

3Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo! Conforme a sua grande misericórdia, ele nos regenerou para uma esperança viva, por meio da ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, 4para uma herança que jamais poderá perecer, macular-se ou perder o seu valor. Herança guardada nos céus para vocês 5que, mediante a fé, são protegidos pelo poder de Deus até chegar a salvação prestes a ser revelada no último tempo. 1 Pe. 1.3-5 (NVI)

Esse chamado de Deus é uma porta que se abre para o que Jesus, na conversa que teve com Nicodemos, chamou de novo nascimento.

No verso 3 Pedro, antecipando-se ao que ia escrever em seguida, se fosse nordestino, bradaria: Ô Deus arretado!! Mas como não era ele exalta a Deus do jeito dele. Aí ele continua explicando o que é como acontece esse novo nascimento, que ele chamou de regeneração. Esse é o ponto de partida para a santidade.

Santidade começa com aceitar com gratidão a misericórdia de Deus. Não há qualquer mérito em haver sido regenerado. Não havia em você qualquer coisa digna de ser salva. É tudo um presente gratuito, pelo qual você não fez nada para receber. Portanto, qualquer tentativa de barganhar com Deus é semelhante a tentar pagar por um presente recebido: desnecessário e desrespeitoso.

Santidade começa com confiar no poder de Deus, demonstrado na ressurreição de Cristo. A confiança é de que assim como Jesus ressurgiu dentre os mortos, nós os seus seguidores, fomos resgatados para uma nova vida, que começa aqui e agora. Portanto, qualquer tentativa de viver uma fé desencarnada não vai nos ajudar a ser santos.

Santidade começa com a convicção de que a nova vida que recebemos é como uma herança, porque fomos adotados na família de Deus. Essa nova vida é algo que não pode ser roubada, não se estraga e não perde seu valor. Portanto, o coração inseguro não nos ajudar a viver em santidade.

Santidade começa com uma esperança que não se limita a esta vida, que se projeta para a eternidade. Essa esperança estará completa apenas quando o Senhor retornar e se fizerem novos céus e uma nova terra. Tempo em que não haverá mais choro, nem pranto, nem dor! Portanto, qualquer tentativa de transforma esta vida no único propósito do evangelho não coopera para a santidade em nós.

Santidade na prática

É possível que, ao ouvir sobre santidade, as imagens que venha a sua mente sejam de alguém orando e lendo ou lendo a Bíblia. E certamente a oração e leitura das Escrituras fazem parte da vida de alguém que se interessa e se importa em viver uma vida santa.

Em 1 Pedro 1.13 somos apresentados a uma santidade que começa em nossa relação com Deus e que se torna visível em tudo que fazemos. Portanto, santidade não é coisa de gente enclausurada nas quatro paredes dos templos nem tampouco nas quatro paredes da sala de estar do seu apartamento. Santidade é coisa de gente que vive a vida intensamente.

Veja o que Pedro diz:

13Portanto, estejam com a mente preparada, prontos para a ação; sejam sóbrios e coloquem toda a esperança na graça que lhes será dada quando Jesus Cristo for revelado. 1 Pe. 1.13 (NVI)

Algumas coisas me chamam a atenção neste verso:

...Portanto, estejam com a mente preparada...
Primeiro, é a fala de Pedro que nos convoca a estarmos preparados em nossas mentes. A palavra grega usada pelo apóstolo, διανοια dianoia, indica a mente com centro das habilidades intelectuais, afetivas e volitivas (isto é, da vontade). Santidade, portanto, não é apenas um exercício espiritual. Passa também pelo desenvolvimento de nossa capacidade de entender as coisas, de nos relacionar com as pessoas e lidar com nossas vontades.

...prontos para a ação...
Depois é que esse preparo todo tem como objetivo agir. Não faz sentido preparar-se para uma jornada, vestindo e ajustando as roupas adequadas para um longo percurso, para em seguida sentar-se na cadeira e não fazer nada para o que você se preparou.

Para Pedro a santidade tem que colocar o bloco na rua. Tudo aquilo que Deus lhe permitiu viver, toda inteligência que ele lhe deus, toda a riqueza emocional que você experimentou, todas as habilidades relacionais que ele lhe permitiu desenvolver, todo domínio próprio que você alcançou foram dados para que você seja santo, anunciando assim o amor gracioso de Deus.

...coloquem toda a esperança na graça que lhes será dada quando Jesus Cristo for revelado...
Por fim, Pedro deixa bem claro que aqueles que são chamados para a santidade, não devem apostar suas fichas neste tempo presente. Devemos agir agora, mas os frutos e as recompensas desse agir estão preparados para um tempo futuro.

Dessa forma, somos chamados a uma santidade que em nada ostenta virtudes ou conquistas, mas que aguarda o tempo em que as obras de cada um serão reveladas e recompensadas.

Unidos

É completamente impossível enfrentarmos os desafios de viver vida santa sozinhos. Santidade não é coisa para se experimentar no isolamento. Santidade não é um solo, mas um coral; não é obra de um lobo solitário, mas uma matilha; não um voo solo, mas a apresentação de uma esquadrilha.

Mas os tempos que vivemos são difíceis. Tempos em que profundidade e qualidade se tornaram desnecessárias como característica dos relacionamentos humanos. Temos esquecido de que Deus, ao criar o ser humano, afirmou categoricamente “Não é bom que o homem esteja só” (Embora essa afirmativa esteja no contexto do estabelecimento do primeiro casal, ela reconhece que não fomos feitos para existir sozinhos).

Temos nossa individualidade, mas fomos criados para a coletividade: quando estamos juntos o potencial colocado em cada um de nós torna-se possível; quando estamos juntos a multiforme graça de Deus encontra o ambiente propício para nos conduzir à plenitude de Cristo.

Estar juntos não é apenas estar no mesmo lugar, cantar as mesmas músicas, ler o mesmo texto bíblico e ouvir as mesmas orações. É possível fazer isso tudo, mas estar distante. Por causa dessa possibilidade, de a convivência ser rasa e descomprometida, muitos tem optado pela não-convivência; ou pela convivência virtual.

A opção pela não-convivência pode ser agradável por um tempo, porque o poupa de alguns desgastes próprios do relacionamento; mas a médio e longo prazo é um desastre, porque reduz o potencial que Deus colocou em você. A cada passo que alguém dá em direção ao isolamento relacional mais distante fica de viver uma vida santa.

A convivência virtual tem se tornado a preferência de muita gente. Sem dúvida é melhor que a não-convivência, isto é o isolamento. Mas não é suficiente. Os relacionamentos virtuais são pobres e rasos quando comparados ao olho-no-olho. Não estou dizendo que não sejam úteis e até apropriados em algumas circunstâncias, mas que eles são limitados e pouco ajudam no chamado para sermos santos.

Bem, minha conclusão em relação a isso é que precisamos recuperar os relacionamentos olho-no-olho. Precisamos estar juntos no mesmo lugar, cantar as mesmas músicas, ler o mesmo texto bíblico e ouvir as mesmas orações. Pode ser que não seja perfeito, mas ainda é o melhor que temos.

O escritor da carta aos Hebreus fala sobre isso. Ele nos aponta uma direção importante que não pode ser colocada de lado: quando estamos juntos no mesmo lugar, cantando as mesmas músicas, lendo os mesmos textos bíblicos, ouvindo as mesmas orações, abre-se uma janela para experimentarmos o amor em suas mais variadas dimensões.

24 Procuremos desenvolver entre nós o amor fraternal e estimulemo-nos a fazer o bem. 25 Não descuidemos a nossa participação na comunidade dos crentes, como muitos fazem. Pelo contrário, animemo-nos uns aos outros, tanto mais que vemos aproximar-se o grande momento da sua segunda vinda. Hb 10.24-25 (OL)

Para não descuidar de nossa participação na comunidade dos crentes e atender à vocação que temos para a santidade precisamos rever as prioridades de nossas agendas e avaliar se nossa vida não está girando apenas em volta de nós mesmos. Se for esse o caso, o primeiro passo é confessar o pecado ao Senhor e pedir que ele nos ajude a viver de uma maneira diferente, mais parecida com o modo de vida que Jesus ensinou.

Minha oração neste momento é um pedido ao Senhor para que (1) nos dê clareza e convicção sobre a obra regeneradora de Cristo em nossas vidas; (2) nos ajude a viver santidade de forma prática, gastando nossas vidas como um sinal do Reino; (3) e que eles nos ajude permanecer juntos, cantando as mesmas músicas, lendo os mesmos textos bíblicos, ouvindo as mesmas orações e experimentando o amor em suas mais variadas dimensões.

16 julho 2016

Evangelho Autêntico - Quem é o meu próximo?


Evangelho Autêntico
Quem é o meu próximo?
 
Boa noite, irmãos e irmãs! Este é o nosso penúltimo encontro nesta série de pregações sobre o autêntico evangelho de Jesus. Até agora vimos que o evangelho está guardado sob algumas falas importantes de Jesus. Ele disse:

Eu vim para que tenham vida.

Eu vos aliviarei.

Sem mim nada podeis fazer.

Amai-vos com eu vos amei.

Hoje vamos nos deter no diálogo de Jesus com um intérprete da lei, um homem que gastava muito do seu tempo lendo, estudando e meditando nas Escrituras. Desse diálogo espero que possamos extrair mais um aspecto das boas novas anunciadas por Jesus.

Na conversa que teve com aquele estudioso, Jesus contou a história de um homem que viajava de Jerusalém para Jericó. Era uma viagem perigosa, descendo a serra, com caminhos estreitos e tortuosos.

Desde que Jesus a contou, essa história tem sido recontada, cantada, pintada e dramatizada repetidas vezes pelas gerações seguintes de seus seguidores. Grandes mestres da pintura já retrataram algumas de suas cenas, tentando capturar a força das palavras ditas pelo nosso Senhor.

Eu trouxe uma animação para nos lembrar qual é a história. Vamos ver.

video


Vejamos agora toda a história, conforme foi registrada no evangelho de Lucas:

25Certa ocasião, um perito na lei levantou-se para pôr Jesus à prova e lhe perguntou: "Mestre, o que preciso fazer para herdar a vida eterna?"

26"O que está escrito na Lei?", respondeu Jesus. "Como você a lê?"

27Ele respondeu: " ‘Ame o Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todas as suas forças e de todo o seu entendimento’ e ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’".

28Disse Jesus: "Você respondeu corretamente. Faça isso, e viverá".

29Mas ele, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: "E quem é o meu próximo?"

30Em resposta, disse Jesus: "Um homem descia de Jerusalém para Jericó, quando caiu nas mãos de assaltantes. Estes lhe tiraram as roupas, espancaram-no e se foram, deixando-o quase morto.
31Aconteceu estar descendo pela mesma estrada um sacerdote. Quando viu o homem, passou pelo outro lado.32E assim também um levita; quando chegou ao lugar e o viu, passou pelo outro lado.

33Mas um samaritano, estando de viagem, chegou onde se encontrava o homem e, quando o viu, teve piedade dele.34Aproximou-se, enfaixou-lhe as feridas, derramando nelas vinho e óleo. Depois colocou-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e cuidou dele.

35No dia seguinte, deu dois denários ao hospedeiro e disse-lhe: ‘Cuide dele. Quando voltar lhe pagarei todas as despesas que você tiver’.

36"Qual destes três você acha que foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes? "

37 "Aquele que teve misericórdia dele", respondeu o perito na lei. Jesus lhe disse: "Vá e faça o mesmo". Lc 10. 25-37

Tudo começa com a tentativa de fazer uma pegadinha teológica com Jesus. De tanto estudar as Escrituras, aquele homem tornou-se um perito da lei. Nada havia escapado ao seu exame dedicado e meticuloso. Ele então, resolveu testar os conhecimentos de Jesus. Será que aquele jovem galileu tinha feito a lição de casa e estudado direitinho todos os ensinamentos das Escrituras Sagradas?

A pergunta feita foi sobre um tema muito polêmico nos dias de Jesus: a vida eterna. O que era preciso fazer para herdá-la? O estudioso da lei estava pronto para um grande debate teológico! Finalmente ele encontrara alguém à altura dos seus conhecimentos sobre as Escrituras. Quando terminou de perguntar, todos os olhos se voltaram para Jesus. Como seria a resposta dele?

Conheci um homem que era um estudioso muito detalhista da Bíblia. Ele era muito correto no seu procedimento e tinha um caderninho em que anotava suas dúvidas sobre os textos bíblicos. Sempre que alguém tentava conversar sobre a fé em Jesus e vida de relacionamento com o Senhor ele desconversava e acabava falando sobre o caderninho. Ele achava que para andar com Jesus era preciso resolver todas as dúvidas sobre as Escrituras. Em uma de nossas conversas eu lhe disse: “Quem já tem certeza não precisa de fé. A fé é a marca daqueles que não têm certeza, mas confiam.”.

Voltando a nossa história, Jesus não entrou no debate. A resposta dele foi uma pergunta: o que está escrito? Como você entende o texto sagrado? Não é interessante isso? Jesus poderia fazer uma bela e profunda exposição dos textos sagrados, mas não o fez. Ele poderia sair dali aplaudido como um profundo conhecedor da lei, mas não o fez. Ele preferiu dialogar. Por quê.

Penso que Jesus fez isso porque não era o debate das ideias ou a vitória do argumento que lhe interessava naquele momento. Diante dele havia uma pessoa que precisava descobrir mais sobre como viver o amor de Deus. Jesus estava mais interessado em facilitar essa descoberta.

A melhor maneira de facilitar a descoberta do amor de Deus é dialogar: ouvir, refletir, falar, refletir, ouvir, refletir... Vejo muito crente sedento por debates e discussões nas redes sociais. Muitas argumentações, grosseria, xingamento, desrespeito e pouquíssimo diálogo. É preciso repensar a forma como nos relacionamos nesses ambientes virtuais! Ninguém é obrigado a pensar ou crer exatamente como nós. Jesus sempre optou pelo diálogo para alcançar o coração das pessoas.

 O perito da lei sabia a resposta; perguntou o que sabia apenas para ficar mais à vontade no debate. Ele foi direto ao ponto: amar a Deus e amar ao próximo. Jesus, então disse: isso mesmo! Você está certo faça isso e viverá.

Até agora, o perito estava apenas estudando a lei, pensando sobre o que é certo e o que é errado, refletindo sobre qual o melhor caminho. Jesus, então, como um mestre cuidadoso, segurou na mão daquele homem e o convidou a dar um passo a mais: faça isso e viverá!


É assim o autêntico evangelho de Jesus! Ele vai além da simples reflexão, ultrapassa os estudos dedicados. O evangelho é mais que o um conjunto de regras e não se contenta apenas em saber o que é certo. O evangelho autêntico de Jesus nos chama experimentar a verdade em nossas próprias vidas.

Muitos de nós, que frequentamos as igrejas, nos acostumamos a apenas saber o que é certo. Quando é que você vai segurar na mão de Jesus e fazer o que já sabe que é certo? Ouvimos sobre perdão, mas não perdoamos. Entendemos a graça de Deus, mas continuamos tentando nos salvar a nós mesmo. Ouvimos sobre misericórdia, mas somos cruéis. Aprendemos sobre paz, mas vivemos em guerra com as pessoas. Choramos diante do sacrifício de Jesus não cruz, mas somos incapazes de pagar o preço necessário para manter a família unida, sustentar uma amizade antiga, ser fiel à esposa, ou sustentar o testemunho de Cristo no trabalho. Até quando irmãos, vamos viver assim?

Nossa história continua de forma bem interessante. Era de se esperar que o perito da lei se desse por satisfeito. Afinal de contas ele perguntou e Jesus confirmou que o entendimento que ele tinha da lei estava correto: a vida eterna é a herança daqueles que amam a Deus com todo seu coração, alma, forças e entendimento e amam ao próximo como a si mesmos.

No entanto, o estudioso das Escrituras não se contentou. Por quê? Primeiro, porque o debate que não aconteceu como ele imaginava: Jesus o transformou em um diálogo; segundo, porque se tudo terminasse ali ele sairia com um grande desafio prático: faze isso e viverá.

Nos jogos de computador ou no celular, todo mundo quer passar de fase. Tem gente que vira a noite até passar para fase seguinte do seu jogo preferido. Ali, de frente com o desafio de avançar e colocar sua fé em prática, aquele homem, crente nas Escrituras, não queria passar de fase. Então, ele fez uma pergunta, como quem derruba propositalmente uma árvore no meio da estrada em que está caminhando, e parou novamente: quem é o meu próximo?

Ainda hoje, meus irmãos, muitos de nós que somos da fé, fazemos a mesma coisa. Quando o evangelho nos alcança e nos convoca para viver a vida, colocamos obstáculos no meio da estrada. Quais são as suas árvores? O que impede você de abraçar o autêntico evangelho de Jesus? Quais são as coisas que primeiro você vai resolver para só então passar de fase? Por quanto tempo mais você vai permanecer apenas ouvinte do evangelho de Jesus? Não é a hora de fazer o que você já sabe ser certo?

Nossa história é um alento, um consolo para nossa caminhada com Cristo. Ela mostra como Jesus é realmente um mestre paciente e perseverante. Veja só:

Para ajudar o perito da lei a passar de fase, ele contou a história de um viajante que saiu de Jerusalém para Jericó. Todo mundo sabia que esse era um caminho perigoso. Uma descida de serra, cheia de curvas e voltas onde os assaltantes poderiam se esconder e com facilidade tomar de assalto quem por ali fosse passando. E foi exatamente isso o que aconteceu com o viajante da história. O homem foi roubado, espancado e deixado quase morto na beira da estrada.

Jesus continuou dizendo que outros dois homens passaram pela mesma estrada logo em seguida: um sacerdote e um levita. Os dois eram pessoas de fé e muito religiosas. Eles participavam diretamente do culto a Deus, por isso ambos eram tidos como pessoas que caminhavam perto de Deus.

Todos que ouviam a história esperavam que tanto o sacerdote quanto o levita socorressem aquele homem. Era o mínimo que se esperava deles: que o fato de eles serem pessoas tão próximas de Deus produzisse neles compaixão por aquele homem caído. Mas não foi isso que aconteceu. Os dois mudaram de calçada.

Nesse ponto da história, todos estavam em suspense. E agora? Se o sacerdote e o levita, pessoas de Deus, não pararam para ajudar, certamente este homem vai morrer ali na beira da estrada.

Jesus, no entanto, continuou a história. Um terceiro homem caminhava pela mesma estrada naquele dia: um estrangeiro da região de Samaria. Quando Jesus falou isso, todo mundo que estava ouvindo a história torceu o nariz (coçou a cabeça, mudou o lado que estava sentado...), porque havia uma disputa antiga entre os judeus e os samaritanos. Uma briga de família mal resolvida.

Claro que o samaritano ia passar direto! Se o pastor e o ministro de louvor passaram reto... aquele rapaz da renovação carismática católica não ia parar. Aliás, alguns deles estavam já torcendo para o samaritano passar direto. Nem se lembravam mais do sofrimento daquele homem, jogado na beira da estrada para morrer.

O samaritano também viu o homem ferido e gemendo. A história então, toma uma direção surpreendente. Ele olhou para o homem caído e encheu-se de compaixão diante do estado em que ele se encontrava. Interrompeu sua viagem, desceu de sua montaria, tratou e enfaixou as feridas do viajante, o pôs sobre seu próprio animal e o levou para uma pousada. Lá, ele passou a noite cuidando daquele desconhecido, para no dia seguinte prosseguir em sua viagem. Mais que isso, o homem de Samaria, ao sair, pediu que o dono da pousada continuasse cuidado do viajante desconhecido e se responsabilizou por todas as despesas.

A essa altura todos que ouviam a história, inclusive o perito da lei, estavam de boca aberta. O homem de Samaria, que não adorava Deus do jeito certo, que não sabia tudo o que era necessário a respeito de Deus, cuja família desde muitas gerações não acreditava em coisas errada a respeito de Deus, foram o único a fazer aquilo que todos sabiam ser a coisa certa a ser feita.

Precisamos reconhecer, meus irmãos, que o mero conhecimento das Escrituras não significa muita coisa se não houver também transformações em nossa maneira de viver. A mera participação em cultos e programações, que falam sobre o evangelho de Jesus, não tem muito valor se nossas atitudes para com as pessoas próximas de nós forem de amor e misericórdia. O autêntico evangelho de Jesus não pode ser plenamente vivido sem que você perceba as dores e o sofrimento daqueles que Deus colocar em seu caminho.

Vamos lembrar que a pergunta do perito da lei, aquele tronco que ele jogou meio da estrada para não avançar, era “Quem é o meu próximo”, isto é, quem eu devo amar. A pergunta do perito é sutil, porque pressupõe que nem todas as pessoas devem ser amadas, porque nem todas estão próximas. Então como eu saberei quem é o próximo que eu devo amar?

O perito da lei e todos que ouviam a história de Jesus estão prontos para sua conclusão. Ele a queriam ouvia da boca do jovem pregador. Quem é afinal o próximo a quem devo amar.

Então Jesus outra vez faz uma pergunta: “Qual destes três você acha que foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes? ”. Vejam como Jesus muda a direção da conversa: o perito queria saber quem era o seu próximo, Jesus pergunta que se fez próximo do viajante na estrada; o mestre da lei queria saber quem ele deveria amar, Jesus pergunta quem amou; para o estudante das escrituras o importante era quem está próximo de mim o suficiente para que eu ame, para Jesus o que importava de quem você vai se aproximar para amar.

Qual deste três se aproximou do viajante assaltado, perguntou Jesus. Qual deles se fez próximo daquele homem e o amou não só da boca pra fora? O perito na lei não fugiu da pergunta: “aquele que teve misericórdia dele”.

Temos aqui uma vocação, um chamado do autêntico evangelho para todos os seguidores de Jesus: fazer-se próximo das pessoas para amá-las de fato e em verdade. Os seguidores de Jesus fazem como ele: não esperam que as pessoas se aproximem para amá-las, aproximam-se das pessoas para que possam amá-las.

Fazendo assim estamos imitando nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo, que deixou a eternidade e se fez humano. Sentiu nossas dores, viveu nossas angústias e experimentou os nossos medos, para que seu amor por nós fosse completo. Ele se fez próximo de nós e nos chama para que nos façamos próximos daqueles que cruzam nosso caminho.

Começamos com a pergunta do perito da lei, “Quem é o meu próximo” e chegamos à pergunta de Jesus “De quem você vai se fazer próximo? ” A primeira pergunta é um tronco no meio da estrada, a segunda é caminho livre para passar de fase e experimentar o autêntico evangelho de Jesus. Que ele nos ajude na caminhada.


06 julho 2016

Evangelho Autêntico - Amai-vos como eu vos amei


Evangelho Autêntico
Amai-vos como eu vos amei

Conexão

Boa noite, irmãos e irmãs! Este é o quarto encontro em que estamos refletindo sobre o Autêntico Evangelho de Jesus.

Primeiramente vimos que o Evangelho Autêntico é a notícia de que Jesus veio a este mundo para vivermos a vida em toda a plenitude planejada por Deus – Eu vim para que tenham vida.

Depois, chegamos à conclusão de que Jesus nos chamou para si mesmo, não para uma religião. Ele é o único caminho para a liberdade dos pesados fardos das tentativas de justiça própria, do esforço religioso e da confiança no mérito pessoal – Eu vos aliviarei.

Em nosso terceiro encontro vimos que a conexão mais importante de nossas vidas é com Cristo. Jesus é a videira, nós os ramos. Não há conexão mais importante em sua vida do que a conexão com Jesus. É dele que vem a seiva que mantém você espiritualmente vivo. Sem ele, nada de valor poderemos fazer. Sem ele o que fazemos tem implicações eternas. Sem ele podemos até parecer vivos, mas na verdade estamos mortos – Sem mim nada podeis fazer.

Introdução

Hoje é o nosso quarto encontro e veremos mais um aspecto do evangelho autêntico de Jesus Cristo: Ele nos deixou um mandamento novo, diferente de tudo que já havia sido dito. Nosso texto base será Jo 13.34 e 15.12:

34Novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros. Jo 13.34 (ARA)

12O meu mandamento é este: que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei. Jo 15.12 (ARA)

No início deste ano, um irmão querido que compartilhava a Palavra conosco, ali na Comunidade Batista em Mangabeira IV, chamou-nos a atenção para o fato de que há uma gradação nos desafios feitos por Jesus em relação a amar as outras pessoas. Ele destacou que ao nos desafiar a amar da mesma maneira como ele nos amou, o Senhor está nos conduzindo para um nível mais aperfeiçoado de amor. Aquele irmão considerou que Jesus estaria nos desafiando a irmos além de amar o próximo como a si mesmo.

Enquanto ele falava fiquei pensando: como ir além? Como amar da mesma maneira que ele nos amou, se a maioria de nós acha um grande desafio amar os outros como ama a si mesmo? Aquilo me chamou a atenção!

Há quem pense que o caminho para o amor próprio é colocar a si mesmo sempre em primeiro lugar. Alguns se dedicam tanto a isso que se tornam amantes de si mesmo (2 Tm 3.2) e acabam engodados no próprio egoísmo. Não me parece que seja esse o caminho dos discípulos de Jesus.

Há outros que não perceberam ainda o quanto são importantes para Deus e amados por ele. A imagem que têm si mesmos é tão ruim que acabam aprisionados por pensamentos de tristeza e depressão, sentindo incapazes de amar quem quer que seja. Se você caiu nessa armadilha, precisa saber que há uma esperança para essa situação.

Não há dúvida de que precisamos experimentar o amor por nós mesmos para prosseguir amando as pessoas. No entanto, diferente do que pregam alguns, esse amor próprio não cresce sadio no chão do egoísmo. Ele acontece quando sabemos que somos importantes para alguém. É quando a gente se percebe necessário e amado que bate aquela sensação de bem-estar consigo mesmo.

A questão é que nem sempre isso é verdade. Algumas vezes o ambiente em nossa volta não é favorável para nos sentirmos amados pelos outros e de bem com a vida. Talvez essa seja uma das razões pelas quais a Bíblia nos lembra, o tempo todo, a respeito do amor de Deus por nós. Em seu versículo mais conhecido, ela nos diz “Deus amou o mundo de tal maneira...” (Jo 3.16). E depois afirma “Nós amamos porque Ele nos amou primeiro”. (1 Jo 4.19).

 Aqueles que seguem a Jesus, portanto, não dependem das circunstâncias em sua volta para se sentirem amados; podem sempre contar com o amor de Deus, a despeito do estiver rolando em sua volta (Essa paz que sinto em minh’alma, não é porque tudo me vai bem!). Para nós, o amar-se a si mesmo não depende prioritariamente de como a vida nos trata. A base de nosso amor próprio é construída a partir do entendimento e da experiência do amor de Deus em nossas vidas.

Foi aí que percebi que em matéria de amar as pessoas, temos considerado o amor próprio como o objetivo máximo a ser alcançado, mas parece que para Jesus esse é o patamar mínimo. Isso me inquietou ainda mais!

A lei do mais forte

Retorne comigo agora para os primórdios da criação. Vejamos como nossa compreensão de amor foi-se aperfeiçoando.

Caim e Abel adoraram ao Senhor com o fruto do seu trabalho. Abel era pastor de ovelhas e Caim agricultor. O texto não esclarece a razão, mas o fato é que Deus aceitou a oferta de Abel, mas não aceitou o que Caim lhe trouxera. Caim ficou furioso com aquela situação. Sua ira foi tanta que ele tramou e executou o assassinato do seu irmão. 

A reação de Caim foi completamente desproporcional. Ele ficou transtornado com aquela situação. Mesmo depois de ter recebido uma orientação direta de Deus, ele não se conteve e tirou a vida de seu irmão.

6O Senhor disse a Caim: "Por que você está furioso? Por que se transtornou o seu rosto?7Se você fizer o bem, não será aceito? Mas se não o fizer, saiba que o pecado o ameaça à porta; ele deseja conquistá-lo, mas você deve dominá-lo". Gn 4.6,7(NVI)

Ao ser banido das terras que cultivava, a primeira preocupação de Caim foi com sua própria vida. Embora tenha agido de forma desproporcional com seu irmão, Caim acusou o Senhor de estar aplicando uma punição desproporcional ao crime que ele havia cometido.

13Disse Caim ao Senhor: "Meu castigo é maior do que posso suportar.14Hoje me expulsas desta terra, e terei que me esconder da tua face; serei um fugitivo errante pelo mundo, e qualquer que me encontrar me matará". Gn 4.13,14 (NVI)

A acusação não procedia. Ainda que sua vida fosse tomada, isso seria apenas a mesma coisa que ele fizera com seu irmão. Mas Deus agiu com misericórdia e pôs em Caim um sinal para que ninguém tomasse a vingança de Abel em suas mãos.

15Não, respondeu-lhe o Senhor. Não te matarão. Porque quem o fizesse havia de ser castigado sete vezes mais do que tu. E pôs em Caim um sinal identificador, para o impedir de ser morto por quem o encontrasse. Gn 4.15

Esse descontrole que Caim experimentou, pouco a pouco, tornou-se o padrão nos relacionamentos humanos. Cinco gerações se passaram até que um homem chamado Lameque usou promessa feita por Deus a Caim para justificar sua violência.

23Um dia Lameque disse às esposas dele: "Ada e Zilá, escutem: Matei um homem porque me machucou, e um rapaz só porque me pisou.24Se aquele que matar Caim vai receber castigo sete vezes pior do que o dele, aquele que quiser vingar o que fiz sofrerá castigo setenta e sete vezes pior!" Gn 4. 23,24.

Essa era a “lei” que reinava no coração dos homens. A lei do assassinato, da violência, da impiedade e da opressão. É nesse contexto que o texto sagrado afirma a intensão de Deus de recomeçar tudo. Um grande dilúvio foi o que ele fez acontecer.

13Deus disse a Noé: "Darei fim a todos os seres humanos, porque a terra encheu-se de violência por causa deles. Eu os destruirei juntamente com a terra. Gn 6.13

Vem o dilúvio e o recomeço, mas o coração do ser humano permanece cheio de medo e desconfiança. Não demorou muito até que o mesmo descontrole que dominou Caim se tornasse novamente o padrão nos relacionamentos humanos.

Os filhos de Abraão souberam que sua irmã, Diná, tinha sido violentada por um homem chamado Siquém e ficaram indignados com aquilo. Depois da violência cometida, Siquém sentiu-se atraído por Diná e propôs casar-se com ela e a sustentá-la, conforme dizia a lei (Dt. 22.28-29). Mas os irmãos de Diná, tomados pelo desejo de vingança, planejam com frieza uma oportunidade para executá-la, exigindo que todos os homens da região se circuncidassem para que o casamento fosse válido.

25Três dias depois, quando ainda sofriam dores, dois filhos de Jacó, Simeão e Levi, irmãos de Diná, pegaram suas espadas e atacaram a cidade desprevenida, matando todos os homens. Gn 34.25

Há pessoas em nossos dias, em nossas cidades que vivem com base na mesma violência desmedida de Caim, Lameque e dos irmãos de Diná. A violência, física ou verbal, é o único modo de relacionamento que conhecem. É revoltante que a lei do mais forte sejam uma das poucas a ser cumprida em nossas cidades, mas é inadmissível que a violência, aconteça na rua ou dentro de casa, tenha lugar entre aqueles que são discípulos de Jesus.

Olho por olho, dente por dente

Nesse cenário de violência desmedida, em que o coração dos homens era facilmente tomado pela vingança, e que os crimes cometidos eram punidos de acordo com a tamanho da ira do ofendido, Deus pôs um limite:

19"Quem ferir alguém, fazendo com que fique com algum defeito, receberá castigo correspondente ao mal que fez. Terá de ser ferido do mesmo modo.20A regra é esta: fratura por fratura, olho por olho, dente por dente. O que um homem fizer a outro, isso mesmo será feito a ele. Lv 24.19,20

Essa regra, conhecida com a Lei de Talião, estava presente em muitas culturas antigas e funcionou como um limite dado por Deus para violência humana. Hoje quando ouvimos temos a impressão de algo cruel, mas no contexto e que ela foi proposta era exatamente o contrário.

Ao mesmo tempo que colocava limite na vingança pessoal e desmedida, a lei de Talião provocava o extinto de autopreservação. Você gosta do seu braço? Então é melhor não ferir o braço do outro. Você gosta dos seus dentes? Então é melhor deixar os dentes do outro em paz

A lei do olho-por-olho, de certa forma, cumpriu seu papel de estabelecer um limite para os ofendidos descontrolados. Mas, por outro lado, os ofendidos frios e calculistas passaram a usá-la como um instrumento de reparação e vingança, cultivando ainda em suas almas sentimentos de desamor, ódio e rancor contra seus ofensores.

Tem gente que ainda hoje gosta da Lei de Talião. Normalmente é gente que se acha muito certinha, controlada e que nunca vai perder as estribeiras. É gente que acha que sempre tem razão e que jamais será alçado por uma norma assim, por isso fica animada em aplicá-la para os outros. Para esses, “olho por olho” se transformou em uma arma contra seus inimigos. Infelizmente, tá cheio de crente que é fã da Lei de Talião.

Eu, porém, vos digo...

Nos dias de Jesus, os efeitos positivos da lei de Talião já estavam instalados no modo de vida das pessoas. A vingança descontrolada dos tempos antigos havia encontrado alguns limites. Mas isso não era suficiente. Jesus desafia, então, para um novo passo:

38"Vocês ouviram o que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente’.39Mas eu lhes digo: Não resistam ao perverso. Mt 5.38,39

Nesse novo degrau, somos desafiados pelo Senhor a interromper o percurso do mal. A maldade se perpetua pela vingança. Limitar a vingança limita o terreno de atuação do mal, mas quando dizemos não à vingança o mal é vencido.

O desafio proposto por Jesus tem a ver como o nosso modo de encarar a vida:

·       Como você reage ao ser ofendido ou agredido? Deseja tomar nas mãos a vingança? Você confia o suficiente no Senhor para deixar tudo nas mãos dele e vê-lo preservar os relacionamentos?

·       Como você lida com injúria, o perjúrio ou a acusação mentirosa (na rua ou na justiça)? Você está pronto a abrir mão de algo para manter a paz ou prefere a guerra? Dá pra esperar?

·       Você está pronto a submeter-se a leis injustas, impostas arbitrariamente, para testemunhar a respeito do bom nome de Cristo?

O desafio é a viver nossos dias aqui da melhor maneira possível, sem perder de vista a esperança do governo justo de Cristo, quando aquilo que agora é e parte será plenamente vivido por todos.
Como a si mesmo...

Quando foi indagado sobre qual era o mandamento mais importante de todos, Jesus apresentou a seguinte resposta:

29Respondeu Jesus: "O mais importante é este: ‘Ouve, ó Israel, o Senhor, o nosso Deus, o Senhor é o único Senhor.30Ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todo o seu entendimento e de todas as suas forças’.31O segundo é este: ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’. Não existe mandamento maior do que estes". Mc 12.29-31

Chegamos de volta agora ao começo de nossas reflexões: amar o próximo como a si mesmo. Há muitos crentes que se dão por satisfeitos em não desejar o mal para ninguém e a ajudar uma outra pessoa mais próxima. Sentem-se assim cumprindo o segundo mandamento. Mas será isso apenas?

Para quem acabou de sair do olho por olho e ainda está se despindo dos panos de trapo do velho homem, este são passos necessários e desafiadores. Na verdade, amar o próximo como a si mesmo é uma espécie de introdução ao desafio final de Cristo.
Amar o próximo como a si mesmo engloba todos os mandamentos relacionais do antigo testamento e certamente está no projeto de Deus para a vida humana. Mas como é isso demonstrado na prática? Sem um referencial, podemos ser tentados a relativizar esse amor.

Alguém que sente algum prazer doentio, poderia utilizar-se dessa máxima para ferir outros em nome de seu próprio prazer. Outro que afirme não se importar em amado, pode usar a máxima para não amar as pessoas em sua volta.

Muito do que desejamos para nós é bom e agradável ao Senhor, mas não é difícil que alguns de nossos desejos para nós mesmos esteja corrompidos pelo pecado que habita em nós, transformando-se em desculpar aparentemente perfeita para não amar. Diante dessas relativizações, Jesus mostrou em sua própria vida como é esse amor.

Há crentes que estão emaranhados nessas desculpas. Não ensinam porque não gostam de ser ensinados. Não exortam porque não gostam de ser exortados. Não cuidam dos outros porque não se permitem ser cuidados. Não se interessam pelos outros porque não abrem suas vidas para serem tratados. Por fim não amam, porque dizem não ter interesse em serem amados. Tudo isso é desculpa esfarrapada de quem se apega à letra da lei.

Como eu vos amei

Por fim chegamos ao nosso desafio final:

34Novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros. Jo 13.34 (ARA)

Como foi esse amor de Jesus? Ele mesmo explicou isso. Um pouco mais à frente em sua conversa com os discípulos ele voltou a falar desse novo mandamento e explicou melhor:

12O meu mandamento é este: que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei.13Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos. Jo 15.12,13

Amar como Jesus amou é colocar a vida a serviço das outras pessoas. Esse é um novo patamar de amor. É um amor sacrificial, que encontra significado além de si mesmo. É ao mesmo tempo a explicação e aprofundamento do que significa amar o próximo como a si mesmo.

Não é preciso muito para explicar a natureza do amor de Cristo por nós. Ele entregou-se à morte por mim e por você. Jesus não foi assassinado contra sua vontade. Como um cordeiro mudo que é encaminhado para o abate, assim ele caminhou para a cruz do Cálvario.

Certa vez ele disse:

17Por isso é que meu Pai me ama, porque eu dou a minha vida para retomá-la.18Ninguém a tira de mim, mas eu a dou por minha espontânea vontade. Jo 10.18 (NVI)

O apóstolo Paulo fez uma afirmação que representa bem essa disposição de amar como Jesus amou:

15E eu sinto-me feliz em me dar totalmente a mim mesmo e tudo quanto tenho para vosso bem espiritual, embora pareça que quanto mais vos amo, menos vocês me amem. 2 Co 12.15 NVI

Amar como Jesus amou e se deixar gastar em prol do bem espiritual de outras pessoas. Aqui não tem cabimento a lei do mais forte, da vingança sem medida. Não faz sentido a lei de Talião, do olho por olho, dente por dente. Isso vai muito além do amar a si mesmo e ultrapassa o simples amar o próximo com a si mesmo. Isso é amar como Jesus amou.

Em outra versão a expressão usada por Paulo foi traduzida por gastar-se.

15 Assim, de boa vontade, por amor de vocês, gastarei tudo o que tenho e também me desgastarei pessoalmente. 2 Co 12.15 NVI

Que grande desafio para os dias em que vivemos! Dias em que somos encorajados por outros evangelhos a viver para nós mesmos, a cuidar de nossos interesses e a fazer tudo para que nossas vidas sejam o mais confortáveis que for possível.

Que grande desafio saber que o autêntico evangelho de Jesus, com clareza cristalina, nos afirma que o sentido de nossas vidas está além de nós mesmo. Gastar-se e se deixar gastar, pessoalmente, sem delegações ou terceirizações, em prol do bem espiritual daqueles que nos cercam.
Que desafio investir tempo, recursos e a própria vida na esperança e na confiança de que a aparentem rejeição e incompreensão, no final resultaram no bem espiritual daqueles a quem o Senhor nos chamou a amar.


Que Ele nos encha de coragem e confiança para amar como Jesus amou.

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